segunda-feira, 28 de abril de 2008

'Tá-se bem em Lisboa e nalguns arredores

Ele é o indie Lisboa '08, onde ainda é possível ver ou já ter visto "Patti Smith - Dream of Life", de Steven Sebring; ele é Pina Baush, que aí vem com o seu consagrado "Cafe Muller", para além de outras obras igualmente aclamadas nas suas anteriores visitas ao nosso país; ele são os variados espectáculos de Jazz que por aí vão acontecendo; ele foi Meredith Monk, no CCB, que tem um novo álbum - "impermanence"; ele é o relançamento da revista "Ler", sob a direcção, em continuidade, de Francisco José Viegas;e as feiras do livro que por aí se encontram a granel, uma na Av. de Roma, em frente ao Teatro Maria Matos, outra em Algés, à saída do comboio, outra no metro do Cais do Sodré. E quem vá a Cascais, também lá vai encontrar uma. 'Tá-se bem*.
*É certo que depende no ponto de vista de cada um.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Morre o Cinema Quarteto - Morre o seu fundador

A lógica implacável que atravessa estes factos e me faz chorar a dobrar.
A morte do cinema Quarteto fora mais um ataque feroz à memória da nossa cultura. Ainda se fosse transformado em museu do cinema, cristalização do que foi um lugar marcante de uma época de mudança e revolução na nossa sociedade, e prestada homenagem ao seu fundador. Mas não. Mataram também o seu fundador. Pedro Bandeira Freire morreu hoje, na sequência de um AVC - coisa que dá muito naqueles que sofrem grandes choques emocionais. Tinha entregue as chaves do Quarteto há cerca de um mês. Será que não havia hipótese de um subsídio extraordinário do Ministério da Cultura, ou da Câmara Municipal de Lisboa? Como é que não se encontra uma solução para uma coisa destas? Não se podia modernizá-lo, prolongando a sua vida com cinema alternativo, a exemplo das salas geridas por Paulo Branco?
Mas não. O assunto morreu, porque, a haver uma solução, o seu fundador deveria estar vivo para vê-la e com ela rejubilar. Agora é tarde demais!
Fica aqui um excerto de um artigo publicado recentemente no blog A Bomba, e que sintetiza o que se possa dizer sobre o assunto:
«O mais importante do Quarteto foi, todavia, a revelação de uma nova forma de programar, assente no amor pelas obras exibidas. A 21 de Novembro de 1975, abriu finalmente as suas portas. «Foi um espanto!», diz quem lá esteve. No mesmo prédio, quatro salas, quatro filmes em simultâneo: o primeiro multiplex de Portugal! Para os cinéfilos, foi o deslumbramento. Os filmes de estreia eram um luxo: S. Miguel tinha um Galo, dos Irmãos Tassani; Um Filme Doce, de Makavejev; Amor em Tons Eróticos, de Mai Zetterling; e E deram-lhe uma Espingarda… de Dalton Trumbo. Assim nasceu o Quarteto, com bilhetes a 30$00.» Aliás, é de ler o artigo completo.

sábado, 22 de março de 2008

No dia Mundial da Água

Esta é a água que me enche o espírito. Esta a fonte dos meus suspiros. Esta é a minha noção de infinito.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Duquesa de Medina Sidonia

Fiquei impressionada com esta senhora, primeiro por um artigo "In Memoriam", de José Cutileiro, publicado no jornal "Expresso" de 15 de Março passado, e, depois, por uma pequena pesquisa que efectuei na internet e que veio consolidar a primeira impressão com que dela fiquei: De foi uma mulher de uma coragem, frontalidade e dinamismo difíceis de igualar. Nascida no Estoril, em 1936 e falecida no dia 7 deste mês, "de causas naturais", segundo a imprensa espanhola, Luisa Isabel Alvarez de Toledo y Maura, conhecida como a "Duquesa Vermelha", foi, desde sempre, uma rebelde, ou melhor, uma contestatária, socialista, denunciadora de injustiças sociais e agindo de acordo como tal, tendo estado presa por isso mesmo, por ir contra tudo o que considerava errado na ordem social estabelecida.
Essa atitude perante a vida não obstou a que tenha sido a guardiã incansável do espólio de 500 anos herdado de sua ilustre família - uma das linhagens mais antigas de Espanha e da Europa.
Mas nada melhor do que transcrever o que Mário Soares escreveu para o "Diário de Notícias" sobre esta grande figura da aristocracia ibérica:
A Duquesa Vermelha. Como alguns semanários portugueses noticiaram, morreu, na passada sexta-feira, no seu castelo de Sanlúcar de Barrameda, na foz do rio Guadalquibir, Luísa Isabel Alvarez de Toledo y Maura, duquesa de Medina Sidónia e marquesa de Villafranca, uma dos "grandes" de Espanha.Era uma personalidade muito singular. Tendo nascido no Estoril, em 1936 - no ano fatal do golpe clerical-franquista contra a II República Espanhola, que se transformaria em cruenta guerra civil (1936-39) - numa família da mais alta aristocracia, aliás muito ligada a Portugal (Luísa de Gusmão, mulher de D. João IV, pertencia à linhagem dos Medina Sidónia), tornou-se em adulta republicana e anarquista, depois de um casamento infeliz, que desfez, assim que lhe foi possível.Pela parte da mãe era neta de António Maura, outro "grande" de Espanha, que foi ministro da República e avô em linha recta do intelectual e escritor espanhol Jorge Semprun, ministro da Cultura de um dos governos de Felipe Gonzalez. Conheci a duquesa de Medina Sidónia, quando se encontrava exilada em Paris, depois de ter estado presa nos cárceres franquistas, para evitar novas prisões. O Maio de 68 ainda estava próximo e o ar que se respirava em Paris, em pleno gaullismo, era de grande liberdade e não só política.Lembro-me que a conheci num jantar do Centro Republicano de Paris, em homenagem ao político catalão Companys, fuzilado pelos franquistas, onde se encontrava também a sua viúva. Nos arquivos da Fundação Mário Soares deve ainda haver uma fotografia desse evento onde eu figuro, sentado ao lado da Duquesa Vermelha. Falámos muito nessa noite. Naturalmente de Espanha, de Portugal e das respectivas libertações. Conspirámos um pouco. E ficámos amigos. Vimo-nos ainda algumas vezes em Paris. Depois da Revolução dos Cravos, visitou--me em Lisboa, não sem reconhecer que, finalmente, Portugal se tinha libertado da ditadura primeiro do que Espanha!Mas a transição espanhola veio logo em 1976-78. A duquesa de Medina Sidónia regressou a Espanha, entretanto. Filiou-se no PSOE. Participou em manifestações. Distribuiu terras suas às cooperativas de camponeses da Andaluzia. E, sobretudo, zangou-se com muita gente, porque era de feitio conflituoso, frontal, dizia o que pensava, sem papas na língua, e era muito senhora do seu nariz.Cansada da política, refugiou-se no seu castelo de Sanlúcar de Barrameda e meteu-se, furiosamente, a organizar o seu valiosíssimo arquivo histórico, com a colaboração da sua inseparável amiga alemã, Liliana, com quem vivia em união de facto, perfeitamente assumida. A última das suas originalidades consistiu em casar in articulo mortis, coerentemente, com a sua amiga Liliana, a quem deixou os seus bens.Um dia, era eu Presidente, telefonou-me para Belém. Disse-me que se tinha zangado com o reitor da Universidade Complutense de Madrid, que, aliás, era um homem consensual e pacífico, que conheci bem. Queria estabelecer um contacto com a Universidade de Coimbra, cujo prestígio conhecia desde sempre. Pediu-me, numa palavra, para fazer o contacto. Assim fiz. Contactei o meu amigo, reitor de Coimbra, Rui Alarcão, e disse-lhe do que se tratava. Ele ficou francamente interessado. E daí, partimos os dois, de automóvel, para Sanlúcar de Barrameda, onde passámos uma noite e jantámos com a Duquesa e a sua inseparável amiga e conversámos longamente. Uma noite divertida e encantadora.Acho que o acordo não chegou a concretizar-se. Infelizmente. Não sei bem porquê. Mas dessa noite - e da nossa conversa - ficou-me uma recordação indelével. Lembro-me que referiu e mostrou um velho relatório que encontrou nos seus arquivos, de um espião de Felipe II de Espanha, que assistira à batalha de Alcácer-Quibir e que assinalava ao Rei que D. Sebastião não tinha morrido e fugira. Lembrei-me de um grande romance de Aquilino Ribeiro - de pura ficção, Aventura Maravilhosa , que narra a fuga de D. Sebastião, depois da batalha, até chegar, após imensas peripécias, ao Escorial, para reclamar o trono ao seu tio Felipe II. Que o reconheceu e o mandou matar.Será que os sebastianistas teriam alguma razão ao afirmar, naqueles tempos, que D. Sebastião não morrera em Alcácer-Quibir?! Eis um enigma que alimenta há séculos a nossa História e a imaginação de muitos portugueses. (Por Mário Soares – no Diário de Notícias de 18.03.2008)
Notável, não?

segunda-feira, 3 de março de 2008

Françoise Sagan ou um mistério em Paris

Alguns dias depois da morte de Françoise Sagan, encontrava-me a passar uns dias em Paris e, tanta publicação à volta do assunto - capa de jornais, revistas e suplementos - acordou em mim uma vontade imensa de reler "Bonjour tristesse", seu primeiro e talvez mais conhecido romance. Escreveu-o quando tinha 18 anos e eu li-o quando tinha 14 ou 15 anos, sendo que fazia parte da biblioteca de casa de meu avô. Nunca mais o vi desde então. Era na sua língua original, em francês, e lembro-me que, para além de ter gostado muito, fiquei satisfeita por conseguir lê-lo sem grandes dificuldades. Agora percebo que tal se deve à sua escrita simples e acessível. A escrita de uma adolescente.
Com a ideia fixa de adquirir a dita obra, iniciei a minha procura e logo encontrei uma pilha de livros à venda numa grande e famosa loja de artigos culturais. Foi mesmo a primeira coisa que saltou à vista, quando lá entrei: uma edição acabadinha de sair, que compilava grande parte da sua obra, incluindo o "Bonjour tristesse", inúmeros exemplares empilhados em cima de uma bancada. Como a edição era um pouco cara e eu só queria mesmo aquela obra particular, não decidi logo a compra e optei por deixar para o fim a decisão, partindo dali para a minha deambulação costumeira pela zona da música, onde me detenho sempre bastante tempo.
Quando regresso ao local, já decidida a levar aquela edição, qual não é o meu espanto ao verificar que já não estava lá nenhum exemplar. Tinham desaparecido todos. Ou sido retirados, por alguma razão que não me foi explicada. Fiquei perplexa e um pouco desapontada, mas pensei que não iria, certamente, ter dificuldades em encontrar um exemplar do livro de estreia desta escritora numa qualquer outra livraria. Assim, comecei a perguntar por ele em tudo o que era livraria, e em todas me diziam que estava esgotado. Fui ficando cada vez mais obcecada com o assunto. Perguntei e perguntei, até que, aleluia, num alfarrabista, daqueles que têm bancadas de livros velhos no passeio em frente ao estabelecimento, um rapaz por acaso muito simpático, me responde sim, que tinha um exemplar lá fora, no passeio. Et voilá! Um livro de capa dura com impressão de um desenho de Paul Klee (Mise en Garde) e na lombada, tout simplement, Françoise Sagan Bonjour Tristesse. É o que se pode ver no cimo deste apontamento. O preço? Cinco euros. Acho que fiquei com um sorriso do tamanho do mundo. E não é que ainda hoje me interrogo sobre o que terá acontecido a todos aqueles livros que eu vi quando entrei no princípio desta história?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Um anjo-da-guarda chamado João

João, um dos gatos que partilham comigo o orçamento familiar e o mesmo tecto, acaba de se revelar um providencial anjo-da-guarda, ao alertar os humanos co-habitantes, da eminência de um incêndio que poderia ter sido muito chato, para não dizer outras coisas. Obrigada João!!! Muito obrigada! Ah, não fora os animais e não sei não. Agora não me apetece contar como foi. Só sei que o gato João sabe que eu não tenho sete vidas. M(i)au, m(i)au!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Matar saudades de Trás-os-Montes

Saberão os pássaros, quando sobrevoam estas e outras paisagens, apreciar a sua força e beleza? Questionava-se, porque, enquanto na sua infância queria ter sido um pássaro-voador, agora achava que já só queria ter sido uma ave migratória, tipo andorinha, não obstante lhe desagradar viajar em excursões. Viajar e viajar e depois construir o ninho onde bem lhe aprouvesse, sempre a olhar o mundo de cima. Não por soberba, mas pela sensação de liberdade.
Viajar e ser livre. Livre e feliz.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O Estado de sítio do Mundo em geral - 1

Se atentados contra a vida de pessoas é mau, atentados contra a vida de pessoas inocentes (será que as há?) é pior, e pior ainda quando essas pessoas são crianças ou diminuídas, mental ou fisicamente, idosas, ou doentes. Agora, se atentados suicidas contra a vida de pessoas são horríveis, atentados suicidas cometidos por duas mulheres com problemas mentais, suicidadas por comando à distância é qualquer coisa que me deixou mentalmente de rastos, deprimida e de esperança definhada em relação à espécie humana. Até onde vai a capacidade de um ser humano fazer mal a outro?...
Se não me tem apetecido escrever é porque ando amargurada com estas e outras coisas que nos estragam uma visão poética da vida.
Não fora o sorriso que provocaram as obras arquitectónicas do nosso Primeiro, enquanto engenheiro, e permaneceria no limbo dos pensamentos obscuros.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Sundance Film Festival

Está a decorrer, de 17 a 27 de Janeiro, o Festival de cinema de Sundance, Utah, E.U.A.. Aqui se dão a conhecer, desde 1981, alguns dos melhores realizadores, actores e técnicos da arte cinematográfica que temos tido a grata oportunidade de apreciar, à posteriori, claro está.

Este certame teve como co-fundador, o actor e realizador Robert Redford, cuja filha, Amy Redford, se estreia, este ano, também como realizadora, com o filme "The Guitar".

Isabella Rossellini também participa, como realizadora e actriz, em "Green Porno"- ver entrevista e imagens no site do SFF.

Outro dado agradável, a participação de Patti Smith como cabeça de cartaz do festival de música que decorre em paralelo.

Fica aqui o link para se ter uma ideia do que por lá se passa.

sábado, 19 de janeiro de 2008

"Corações com mau feitio"

O Coração, nosso orgão vital, regulador emocional, sentimental e passional é o objecto de "dissecação" artística da extaordinária artista plástica de nome Alexandra Mesquita, cuja nova exposição foi inaugurada no dia 19 de Janeiro, na Galeria Arte Periférica, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
São 50 corações, os intervenientes activos nesta insólita e excelente mostra de mais uma criação articulada, como é habitual nesta artista, com uma reflexão e consequente depuramento do tema que se propôs.
Recordo-me de algumas das suas anteriores escolhas temáticas, cérebros (Pronto a servir de cérebros), objectos do nosso quotidiano (Objectos com Problemas Existenciais), e a escrita (Escrita Irrequieta, Escrita que se fia, e Escrita Arrepiada ). Em todas, um trabalho que nos deixa surpreendidos, porque, para além do resultado estético, regra geral muito apelativo, oferece-nos duas formas de visualização, uma de conjunto, de síntese do seu corpo inteiro, em que o objecto-tema nos é dado ver em variações cromáticas e de textura, e outra de leitura dos seus elementos constitutivos, quando nos aproximamos de cada um dos seus quadros e apreendemos a sua essência, enquanto composição, e descobrimos que, afinal dentro de cada um há uma outra obra, quase que uma encenação, que explica o primeiro impacto visual que antecedeu a aproximação ao objecto. De referir ainda que Alexandra é eloquente e solícita na introdução à sua criação, numa verbalização entusiamada e entusiasmante de geométricas filosofias.
Penso que, com esta exposição, Alexandra Mesquita fica decisivamente consagrada no grupo dos artistas plásticos notáveis do século XXI.

Francisca - A cadela mais linda desta vida

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Não queria ver o fundo do poço...

...mas aquele rapaz japonês, que me acompanha já há algum tempo, em folhas A5, nos 15 minutos que antecedem o mergulho no lado do intangível, quis, por força, que eu o vi-se. Estou a falar do fundo do poço. Sensação apenas comparável a estar numa estação de comboios, à hora de almoço de um dia de Natal. Só o som do mar melhora a imagem.
Mais uma charada, depois da ainda não resolvida história de Lamego.
Não descanso enquanto não devorar as restantes 300 páginas. E depois, estou a pensar enviar para Tóquio a conta do oftalmologista.
Fabuloso! (Escritor...)

sábado, 5 de janeiro de 2008

Música Grande num dia de Chuva Miudinha

Chove miudinho e eficaz, mantendo o dia numa tonalidade crepuscular.
A eficácia da chuva que resolveu, hoje, permanecer pequenina, só para provar que "pequenina mas boa", sentiu-a quando saiu à rua, para passear a cadela. Nobres e duras missões de quem tem estes deveres. Cinco minutos depois, estavam de volta, completamente encharcadas. Miudinha, hein? E não satisfeita, voltou a sair para cumprir com um ritual - comprar o "Expresso". É sábado. Vinte minutos de chuva(inha), que tratou de esquecer, mudando de roupa e instalando-se a ler o jornal. Como pano de fundo musical, e visual, o DVD "The Complete Tokyo Concert" de Chet Baker (1987). Uma belíssima gravação de som, imagem nem tanto, para uma excelente performance. Deitou a sua lagriminha de emoção quando ouviu "Almost Blue"(Elvis Costello). Gostou também muito de "My Funny Valentine"(R.Rodgers-L.Hart), de "Seven Steps to Heaven"(Miles Davis-V.Feldman), "Stella by Starlight"(N.Washington-V.Young). Mas a voz, aquele som doce, sentimental, sensual e com um brilho eternamente jovem. O scat perfeito, como se entre a trompete e a voz não houvesse diferença, como se cantar ou tocar trompete fossem uma expressão única, sujeita apenas ao acaso de escolher uma ou outra formas de execução. E entre o "Expresso" e a música, que não conseguiu ser só de fundo, esqueceu que, lá fora, o dia não tinha passado de um crepúsculo. Moral da história: Podemos sempre alterar a cor dos nossos dias, de preferência para melhor.

sábado, 24 de novembro de 2007

Senhoras das águas

Cúmplices de um projecto de íntimas paisagens, as donzelas observam as águas profundas de mistérios, e parecem esperar que por elas lhes seja revelado o caminho de seus destinos.
Quem se atreve a desvendar onde elas passam os seus dias? (Isto é mesmo um desafio a quem ousou espreitar este cantinho)

Será que a D.Binda ainda vive aqui?

Aquela casa, de toldo recolhido, era, há poucos anos atrás, a mercearia, a drogaria, os correios e a Pensão da aldeia de Cabril. D.Binda, sua dona e senhora, era a anfitriã completa desta casa e desta aldeia. Ela tomava conta da loja, ela distribuía o correio, ela preparava as refeições para os seus hóspedes, ela preparava as acomodações, ela incumbia o seu marido de transportar quem necessitasse à cidade mais próxima, Braga. D. Binda era a super mulher daquele sítio magnífico. Não fora ela, e ficaríamos na rua, sem termos onde comer e dormir.
Será que ainda vive ali?
E, depois, a paisagem circundante é linda. Os cavalos da meseta ibérica, são muito especiais, pequenos mas robustos, com a sua crina imensa, fulgurante de doirada.
E tudo foi encantatório. Aquele frio com Sol de Inverno, e nós a renascermos a cada instante. Tudo era natureza e tudo era belo, tão belo que ficou para sempre incrustado na memória das coisas para sempre.

domingo, 18 de novembro de 2007

Leio, logo existo +

Mia Couto é um escritor doce, poético, muito sensível, muito querido e...um sábio. Dele emana uma sabedoria antiga, uma coisa com raízes bem fundas que nos encanta e delicia. Há um brilho transcendental e uma carga telúrica em tudo o que escreve. Os temas da sua escrita são, invariavelmente, África e os seus nativos, a sua História, as suas lendas, a sua forma de estar na vida.
Não conheço a África de Mia Couto, nem sei se algum dia lá irei, mas, através da sua obra, vou descobrindo esse continente de uma forma, tenho a certeza, muito mais profunda e completa, do que se por lá passasse em passeio turístico. Neste momento encontro-me a ler "O Outro Pé da Sereia" (Editora: Caminho/Outras Margens), obra que avança por zonas mais obscuras da alma humana. Antes, tinha lido "O Fio das Missangas", sátira social muito engraçada, em vários contos, qual deles o melhor, sem, no entanto, perder as características que acima reconheci no seu autor. E vou continuar, intercalando com outras leituras, por esse mundo literário singular que é a obra deste escritor maior moçambicano.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Rumos interiores (rumores?)

Se calhar hoje não dá jeito.
Se calhar é inoportuno.
Se calhar eles vão pensar que tu estás aqui por causa daquela com cauda de crocodilo e garras de gata.
Se calhar vão pensar que tu já estás alterada por alguma conjugação química de alquimias namíbias.
Não vão eles ou elas pensar que tu já não te reconheces no teu eu e abandonar-te sem querer conhecer o teu agora.
OHHHHohhh! Não,não se vão, não, não se vão em vão, nãoooooooooooooooooooooooooooooo!
Ainda não sabem quem tu és. Nem tu, múltipla de ti, que não és pessoa. Espera! Espera por mim!
Ah!
Aí estás, tu que permaneces.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

SobreLeituras

Estou a ler o último de Paul Auster, "Scriptorium". Um bocadinho todos os dias, para melhor o saborear. Uma história que, para já, me faz lembrar um pouco os últimos anos da vida de meu pai, doente precoce de Alzheimer, de que começou a sofrer algures a partir dos 60 anos de idade. Isto porque, embora aparentemente o personagem esteja a ser castigado por quem lhe consagrou um ódio profundo ao ponto de o querer ver num estado de completo esquecimento e dependência, que vai fomentando através de químicos adequados ao fim pretendido, os seus sintomas são muito semelhantes aos que o meu pai apresentava.
Porquê falar do meu pai em contexto tão diverso da sua realidade? Ele que nunca foi à tropa, que tinha horror à violência, para quem a lealdade e o dar a mão aos que dele precisassem era modo de estar na vida. Porquê? Apenas porque o trauma que os seus últimos anos de vida deixaram nos seus entes mais queridos, entre os quais eu, foi tanto que certas descrições comportamentais me (nos) fazem, inevitavelmente, lembrá-lo. Alzheimer aos 80 é diferente de Alzheimer aos 65. (Reli este apontamento e estou a imaginar as possíveis críticas que, caso isto fosse lido por mais alguém, poderiam cair sobre os ditos escritos. O que é que o romance de Paul Auster em causa tem que suscite divagações sobre esta doença? Parece uma daquelas coisas que se mandam para as Selecções. A rapariga escreve mal mas mal. Porque é que a doença aos 80 é menos má do que aos 65? ) A resposta, a minha resposta, é: Porque tudo o que sugere os meus Entes Mais se sobrepõe imediatamente aos personagens fictícios. É natural, suponho eu. Podia escrever sobre o livro, mas como ainda estou no princípio, seria ficção sobre ficção. Peço, desde já, desculpa por qualquer coisinha a todos os Avatares que me lêem.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

(O)CASO

Não era fácil convencer-se de que a juventude já tinha ficado para trás e que os tempos se alteravam à velocidade do tempo. Observava tudo com muita sofreguidão, como se fosse perder a capacidade de memorizar e não pudesse rever na mente o que os seus olhos tinham captado. Olhava-se ao espelho e surpreendia-se com a quantidade súbita de rugas que lhe apareciam no rosto. Depois, já não se expressava com a ligeireza de outros tempos. Parecia que as palavras não se faziam entender, e que os outros tinham dificuldade em perceber o que pretendia comunicar. A pouco e pouco, foi-se isolando dos outros, evitando confrontos de que podia sair com problemas de afirmação e outras mágoas irreversíveis no seu ego. Fugia de médicos, porque desconfiava. Refugiava-se no seu espaço, só com as suas coisas favoritas, que só partilhava com Seres muito especiais. Mas não se sentia só. Apenas sentia cansaço.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Rotinas em tempos de bonança

Quando se levantou, hoje de manhã, não sabia o que a esperava. Uma mosca varejeira a passear na sala, onde tomava o pequeno almoço, tanto a incomodou que acabou por chamar um dos gatos para resolver o assunto. E, pronto, não se fala mais nisso. Quando foi ao mecânico pôr o carro a arranjar, esqueceu-se de que ainda precisava do carro para transportar as compras do supermercado para casa. Resultado, o mecânico ficou para outro dia. Quando se apercebeu que já eram horas de lanche, porque se distraiu a ver "India Song", de Marguerite Duras, comentou que o tempo passa demasiado depressa para seu (des)gosto.