quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Duas opiniões a reter

A primeira, a crónica de Daniel Oliveira, no semanário "Expresso", publicada no sábado passado, com o título "A vida dos outros", que subscrevo na sua quase totalidade e de que deixo aqui os seus últimos parágrafos - «Quem vive confortável na injustiça nunca poderá compreender a sua insuportabilidade. Quem pensa que o privilégio é um direito nunca poderá deixar de pensar que a pobreza é um castigo.»
A segunda, do seu aparente antagónico Henrique Raposo, com cuja atitude, confesso, raramente me identifico, mas que, tendo-me desta vez surpreendido pela positiva, merece também aqui ser mencionada. O seu título: "A outra PT". (...), onde faz uma apreciação sobre a «pornográfica assimetria dos salários» praticados por empresas como a PT ou a EDP: (...) «para os Bavas e os Mexias receberem como se estivessem a jogar no Real Madrid, um exército de gente anónima tem de levar 700 euros para casa.»...
Eu sei que é difícil criarmos uma sociedade justa mas podemos, pelo menos, pensá-la, imaginá-la, e projectá-la. Não deixar de apontar os erros do homem contra o homem. Manter acesa a esperança de que teremos um dia a sociedade ideal.
Continuem, caros Daniel Oliveira e Henrique Raposo. A vossa prosa expressa muito bem o que vai na alma da maioria dos nossos concidadãos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O dia da morte de José Saramago

Que dia, este.
Era suposto dedicá-lo à minha mãe, em exclusividade, porque fez hoje 76 anos que foi colocada na roda viva que é a vida, e, afinal, acabei por dividir grande percentagem do dia com este espectável, dada a fragilidade que vinha aparentando nos últimos tempos, e no entanto desolador de tão triste, acontecimento que foi a morte de José Saramago. Uma perda imensa. Um pensador, um original, um artesão da língua portuguesa como mais ninguém. Um homem que não se detinha perante nada para se fazer ouvir na denúncia de tudo o que achava errado nas práticas políticas deste planeta. Enfim, uma grande pessoa.
Descanse em paz, José. Vamos sentir muito a sua falta.

domingo, 7 de março de 2010

Ele Há coisas...

Hoje, se fosse vivo, o meu avô faria 100 anos.
Hoje senti, um pouco mais na pele, o que é ter de recuar, reconsiderar e retomar o lugar que a mim própria reservei no comboio da vida (que, afinal, se queria alada).
Hoje redescobri uma capacidade de renovação, de renúncia e de retoma de um percurso que me propus.
Hoje sinto-me acrobata sem rede, resoluta e digna na defesa do meu vôo.
Hoje foi um dia especial, e tão especial foi que até descobri que Luis Fernando Veríssimo. filho do Grande escritor brasileiro Erico Veríssimo, tem um lugar cibernético onde podemos ler algumas das suas "pérolas" de humor literário do melhor, ainda por cima, de sua escolha.
E o meu avô também tinha um sentido de humor impagável, ainda para mais, existencial, como, por exemplo, daquela vez que, já viúvo de minha queridíssima avó, lhe foram bater à porta duas testemunhas de Jv... e ele lhes diz «uma pode entrar, mas a outra não, que eu não preciso de testemunhas».

sexta-feira, 5 de março de 2010

Diálogos de pescador

Totó La Momposina, cantora que está para a Colômbia como Cesária Évora para todos nós numa canção que se explica por si só.
Va subiendo la corriente Con chinchorro y atarraya La canoa de bareque Para llegar a la playa. El pescador... habla con la luna El pescador... habla con la playa El pescador... no tiene fortuna Sólo su atarraya. Regresan los pescadores Con su carga pa' vender Al puerto de sus amores Donde tiene su querer.

A pastorinha de António Lobo Antunes

A primeira coisa que li com jeito, hoje de manhã, e que tive mesmo dificuldade em terminar a sua leitura, foi a crónica de António Lobo Antunes na revista Visão, ontem posta à venda (nº.887). A dificuldade citada não decorre de qualquer dificuldade de compreensão do texto ou até de concentração, é que a emoção desassossegou-me os sacos lacrimais e, com os olhos invadidos de lágrimas não é possível ver-se grande coisa. Foi, portanto, a custo de cheguei ao fim de uma das mais belas homenagens que se podem fazer a uma mãe. Aliás, sempre que "ataco" um escrito de Lobo Antunes, tenho de me preparar psicologicamente para o abano emocional. Normalmente riu e choro. Desta vez foi só lágrimas e um sorriso triste que acompanharam um sentimento de plenitude que há muito não sentia enquanto leitora. Salvé, António Lobo Antunes! Bem haja!
Quanto à revista Visão, a minha favorita na especialidade, só tenho a apontar um desaire que fez com que eu não a tivesse comprado na semana passada, mas vi que já se retratou nas suas cartas aos leitores. Aquela capa revoltou-me. Não há o direito de: 1º. Expôr a pessoas mais sensíveis a uma imagem chocante como é aquela; 2º. Faltar ao respeito da família do exposto e, 3º. faltar ao respeito ao próprio que não lhe bastava ter morrido e ainda ser objecto da curiosidade mórbida que alimenta algumas criaturas com as quais evito cruzar-me nesta vida (e já agora nas próximas, também).

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Eu quero este livro

Detesto falar de política. A responsabilidade que implica deter o Poder é fundamental e determinante na vida do cidadão. E o cidadão é um ser humano com direitos, deveres e anseios. E, abstraindo da vergonha que muitas vezes sinto face a alguns cidadãos que, na net, se manifestam das formas mais desrespeitosas e absurdas e que não corresponderão, espero eu, ao comum e pacato cidadão do qual eu sou um eco, digo que a política, da forma como vem sendo exercida, não responde em muito ao anseio comum. Cria mesmo bastante ansiedade na cidadã pacata em que me revejo em lente desfocada. E não estou aqui a defender nenhum partido,apenas alguma ideologia e muito respeito pelos Direitos Humanos. Na hora de votar, confesso que não tenho muita convicção. Sei o que não quero. Só isso. E na hora em que se assiste ao massacre, justificado ou não, de mais um governo, só me ocorre pensar que uns se deixam apanhar e outros não. E que os motivos estão e estarão sempre lá, será apenas tudo uma questão de cair em graça ou em desgraça e ter mais ou menos Poder de agir sobre os anti-corpos. Na hora de celebrarmos a nossa República, há textos que deveríamos ler em jeito de reflexão. O livro de Rui Mateus, "Contos Proibidos" (D.Quixote, 1996), ao que parece "desaparecido" há algum tempo de cena, e de que deixo aqui alguns excertos retirados das suas primeiras páginas, parece-me servir o propósito.
Eu entrei para a política quase por acaso. Aderi nos anos 60 à minúscula Acção Socialista Portuguesa por acreditar que, pela via do socialismo democrático e através de um sistema pluripartidário, Portugal viria a ser um país igual ou melhor que aquele onde vivia exilado - a Suécia - e que era então considerado, acertadamente, a sociedade mais justa e mais evoluída do planeta. Não o socialismo utópico, igualitário, de partido único que transforma os cidadãos em funcionários do estado. O socialismo onde os partidos se combatem no campo das ideias e onde os interesses e bem-estar dos cidadãos estão sempre em primeiro lugar. Onde os partidos políticos são a espinha dorsal do sistema e os instrumentos para a sua modificação democrática e não o instrumento de promoção pessoal dos seus dirigentes. Mas, infelizmente, e daí a outra razão de ser ser deste meu livro, Portugal parece estar a perder essa importante batalha da democracia. Isso atestam o crescente branqueamento da História e falta de transparência das instituições.
A propósito do 25 de Abril, da Revolução dos Cravos e da Liberdade adquirida e de como Portugal chegou a ser um exemplo a seguir aos olhos do Mundo:
(...)Mas os partidos políticos e seus principais dirigentes rapidamente desperdiçariam este enorme património, em lutas intestinas e com vaidades provincianas. Hoje, visto de fora para dentro, Portugal regressou ao seu estatuto de país insignificante e receptor. Não foram conseguidos os grandes objectivos da Revolução de Abril e o País encontra-se entre a Europa e a mediocridade. Parece que o povo português não consegue libertar-se do fatalismo da I República.
(...)Um pouco à semelhança dos «pilares morais»do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus governantes e dos seus magistrados fosse algo suspeito, algo subversivo.
Liberdade, Justiça e Transparência são sinónimos de Democracia. E sem esses ingredientes essenciais o regime português não passará de uma democracia com pés de barro.
(Excertos do livro Contos Proibidos de Rui Mateus)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Atenção! O que não se pronuncia não se escreve.

O novo acordo ortográfico assim o impõe. Com algumas exceções, em que é possível com e sem aquela consoante que ajudava a reforçar o sentido da ação ou da coisa. Credo, isto é mesmo estranho. Temos de começar já a trabalhar o lado preguiçoso dos nossos cérebros. Mas até 2012 temos desculpa. Vá lá...No fundo somos todos atores de uma nova arquitetura da nossa língua. Passar de pharmacia para farmácia só fez com que a palavra pharmacia se enchesse daquele valor que pertence aos achados históricos. E eu, que já cá tenho meio século, acho o máximo poder, de repente, pertencer aos próximos cem anos, pelo menos, na utilização desta componente da palavra- nação- portuguesa.